CRIDO na Maia alerta para a extinção dos ouriços

Fotografia da autoria de Primeira Mão

Sabia que os ouriços são muito importantes para o equilíbrio do ecossistema? Apesar de serem animais fundamentais para atestar a qualidade do ecossistema, os ouriços são mamíferos em perigo de extinção. Na Maia, há um Centro que os acolhe, recupera e insere-os de volta na natureza, sempre que possível. Trata-se do CRIDO e é único na península ibérica.

 

O Centro de Recuperação e Intervenção do Ouriço (CRIDO) foi inaugurado no Bairro do Sobreiro, no dia 5 de junho. Faz parte da ‘Amigos Picudos – Associação para a Preservação e Protecção dos Ouriços‘, fundada em 2013, por Clarisse Rodrigues e Tiago Vieira, que assumiram o compromisso de melhorar a vida desta espécie em vias de extinção.

Os fundadores explicaram ao Primeira Mão, que o caminho até à inauguração do CRIDO foi atribulado. “Isto estava devoluto, não tinha portas, chão nem rede elétrica. Estivemos dois anos a preparar tudo, diariamente e aos bocadinhos”.

Para Clarisse e Tiago, ajudar esta espécie tornou-se numa missão e, como nos contou Clarisse, o ouriço europeu é a única espécie que existe no país”. No entanto, “está em declínio e neste momento, em Portugal, estão a trabalhar a revisão da lista vermelha de mamíferos”. Uma medida para a qual o CRIDO também contribui, pois “nós já estamos a tentar participar no processo para demonstrar que a classificação tem de mudar, até porque não somos só nós. São os colegas da França, da Holanda, da Dinamarca e está tudo em declínio de 20 %, 30 %”, frisou. “No Reino Unido, por exemplo, no ano passado, a classificação passou de pouco preocupante para vulnerável, ou seja, o ouriço entrou para a lista vermelha de mamíferos”.

Ouriços são “indicadores da qualidade do ecossistema”

Tal como outros animais menos visíveis aos olhos do ser humano, os ouriços são muito importantes para o ecossistema. Segundo a coordenadora do espaço CRIDO, “são um indicador de qualidade do ecossistema e onde deixa de haver ouriços, alguma coisa na cadeia alimentar se perdeu, neste caso os insetos”.

Relativamente ao trabalho efetuado com os ouriços, a equipa do CRIDO possui duas áreas de atuação. “Tratamos a parte física e a parte comportamental”, mencionou Clarisse. “Se forem órfãos, animais bebés, o normal é cuidar deles, fazer quase o lugar da mãe, até eles irem embora. Se for um animal com ferimentos, ataques de cães, que temos muito, fazemos a limpeza das feridas, desbridamos e sedamos os animais. Eles também entram muitas vezes com hipotermia e temos de os colocar numa incubadora ou utilizar almofadas de aquecimento, damos soro aquecido subcutâneo. E não fazemos só isso, porque quando um animal está muito debilitado normalmente há mais coisas por dentro. Fazemos também a parte de laboratório das coprologias para procurar pelos parasitas internos e fazemos toda a medicação que seja necessária consoante o caso”.

Para além disto, o CRIDO também faz serviços de fisioterapia e hidroterapia. “Temos banheira e com hidroterapia já resolvemos casos de fraturas múltiplas, por exemplo”.

Os “amigos picudos” Sebastiana e Julinho

Sendo o ouriço um animal selvagem, o objetivo do CRIDO é devolvê-los ao seu habitat natural. Para isso, “não basta tratar o físico, é preciso garantir que eles têm instintos para irem embora”, afirma Clarisse.

É o caso de Sebastiana, a única sobrevivente de três órfãos encontrados pelo CRIDO e que, “quando era uma cria, era bastante amigável”. Cerca de 5 meses depois e muito maior, Sebastiana começou a desenvolver uma certa agressividade com os humanos. “Mas é isso que pretendemos para que eles se possam defender lá fora”, reforça.

Mesmo assim, existem alguns animais que não podem ser devolvidos à sua casa na natureza. “Temos casos em que não conseguimos salvar e morrem naturalmente, ou aqueles que estão muito mal e temos de eutanasiar. Depois temos os casos dos irrecuperáveis, pode haver uma situação em que perdem um membro ou que ficam com cegueira total e por nossa política, não libertamos, porque é uma desvantagem” para os animais.

Julinho é um ouriço com cegueira total, já bastante “velhinho” e que nunca mais poderá voltar à natureza. Apesar de atualmente viver feliz ao cuidado do CRIDO, a coordenadora confessou que este ouriço não teve um passado fácil. “Viveu 2 a 3 anos numa jaula, totalmente ao abandono” e quando chegou ao centro de recuperação, bastante debilitado, Julinho ainda conseguia ver com clareza. Uma semana antes de ser libertado, começou a acusar sinais de incapacidade visual e a equipa teve de tomar a decisão de o manter para sempre sob os seus cuidados.

Habitualmente, estes animais chegam ao CRIDO “com pneumonias e parasitas pulmonares”. Mas a “maioria chega com hipotermia”, explicou Clarisse. “Seja bebé ou adulto, quando um animal está doente e debilitado já não consegue regular a temperatura, portanto chegam gelados e quase mortos”. Assim, para quem encontrar um ouriço em estado crítico, “o primeiro SOS é colocar logo uma botija quente por baixo deles e depois a pessoa tem de trazer cá para darmos soro aquecido subcutâneo várias vezes, porque eles também vêm extremamente desidratados e temos de compensar os fluidos”.

Se vir um ouriço durante o dia ligue rapidamente para o CRIDO – 911102676

Os ouriços são animais noturnos e, segundo Clarisse, se forem encontrados durante o dia, “99% das vezes é asneira. Se virem um ouriço durante o dia recomendamos a ligar logo para a associação, e é preciso insistir se nós porventura não atendermos, porque podemos estar nalguma emergência”. De qualquer forma, “deve-se logo pegar no animal, colocá-lo numa caixa de cartão, plástico ou numa transportadora, porque isso ajuda”.

Na ocasionalidade de encontrar um ouriço no período da noite, e se por exemplo, for perto de uma estrada, “a pessoa deve parar e guiar o ouriço para ele atravessar com segurança. Não pegar nele, apenas ajudar a atravessar. Mas em dúvida, deve ligar-se sempre porque pode ser um bebé e deve ser recolhido. Se estiver a mancar ou com feridas também deve ser recolhido”. Portanto, “durante o dia costuma ser asneira, durante a noite não. Mas ligar sempre”.

“As pessoas associam o ouriço a um cenário de floresta idílica, quando isso não é verdade”, alerta a coordenadora. “É um animal de campo, de prado, de subúrbios e não de floresta. Por isso, eles vivem perto do ser humano, seja em contexto rural ou urbano. Claro que em contexto urbano é mais impressionante, um bocadinho como as raposas em Londres, mas eles adaptam-se. Desde que tenham sorte, normalmente conseguem-se safar porque tentam juntar-se às colónias de gatos de rua onde têm comida”. Mas se estes animais coabitam de forma pacífica com gatos vadios, os cães já não são assim tão bons companheiros para os ouriços. “Muitos dos casos que temos aqui são de ataques de cães”, referiu.

Uma espécie “em declínio”

Num mundo ideal, os ouriços teriam uma esperança média de vida “de 8 a 10 anos”. No entanto, no nosso mundo, há diversos fatores que contribuem para a degradação desta espécie e, atualmente, espera-se que um ouriço viva “entre 2 a 3 anos”. Algo que de acordo com Clarisse, se relaciona com um conjunto de circunstâncias. “Alterações climáticas, pesticidas, roçadeiras e espaços verdes muito aparados”, são apenas alguns exemplos.

“Só mesmo com a preservação de zonas protegidas, como parques, e mesmo zonas urbanas” é que podemos ajudar estes animais, afirma Clarisse. “O declínio está a ser maior em zona rural do que em zona urbana, e em zona urbana, as pequenas bolsas verdes que temos devem estar enquadradas em políticas que muitas autarquias já começam a fazer, como a Maia, em não cortar as coisas, não usar pesticidas e venenos, e deixar as coisas mais ao natural, tanto para atrair flores e polinizadores, que também estão em declínio, como animais insetívoros”.

Outra recomendação que a coordenadora do CRIDO menciona é “apelar a quem tenha um grande quintal, a deixar pelo menos 1/3 do jardim desarranjado”. “E o desarranjado não é feio, é apenas o natural para eles poderem viver”, completa.

No final da conversa com o Primeira Mão, Tiago Vieira, coordenador do CRIDO, dedicou um agradecimento especial ao presidente da Câmara Municipal da Maia. “Queremos agradecer ao engenheiro Tiago, porque foi ele, o impulsionador do projeto. Apoiou-nos desde o início e sempre acreditou no nosso trabalho e no nosso valor. Estamos aqui hoje por causa dele”.

Para ajudar o CRIDO e contribuir para a preservação desta espécie, pode contactar diretamente com a associação através do 911102676.

 

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