Aprovada hasta pública dos terrenos para academia do FC Porto na Maia

Foto de Arquivo (Notícias Primeira Mão)

A Câmara da Maia aprovou esta segunda-feira a venda, em hasta pública, pelo valor base de 3,36 Milhões de euros, dos terrenos para a academia do FC Porto. Os vereadores socialistas acusam a autarquia de construir um “fato à medida”.

A decisão que tem de ser agora ratificada em Assembleia Municipal, agendada para 25 de março, atira o término do período para apresentação de ofertas para a semana anterior às eleições no FC Porto, marcadas para 27 abril.

Em causa a alienação de 18 parcelas, integradas no projeto do Parque Metropolitano da Maia, num total de 140.625 metros quadrados (m2).

A proposta, subscrita pelo presidente da autarquia, Silva Tiago (coligação PSD/CDS-PP), foi aprovada por maioria, com os votos contra do Partido Socialista (PS), que se opôs ao valor de 23,89 euros por metro quadrado, definido na avaliação.

“É um fato à medida. (…) Obviamente que os terrenos vão ser vendidos pelo preço base só. Não há mais ninguém que queira este espaço, estamos a colocar um património à venda por 23 euros o metro quadrado. Não existem imóveis a este preço. A Maia não pode estar em saldo ou dar a ideia de que está em saldo”, afirmou o socialista Francisco Vieira de Carvalho à Agência Lusa.

Durante a reunião de ontem do executivo municipal, o PS questionou ainda os meandros do negócio, sublinhando que, nesta altura, a única coisa que é certa, é quem vai usar daquele espaço vai ser o FC Porto SAD.

“Porque se for comprado por alguém e este alguém arrendar ao FC Porto por um determinado preço, é óbvio que estamos aqui a ver negócios da China”, afirmou, apontando a empresa ABB como a futura proprietária dos terrenos em causa.

Em resposta, o presidente da autarquia, Silva Tiago sublinhou que a avaliação que suporta o valor base de licitação foi feita por peritos e avaliadores externos à autarquia, sendo “um valor justo” e com fundamento técnico, comparável ao preço de compra de um outro terreno – a Quinta do Mosteiro – aprovado também ontem em reunião do executivo.

O autarca acrescenta ainda que o valor em causa seria inferior se tivesse por base o Plano Diretor Municipal após a sua revisão.

“A hasta púbica é para quem dar mais, não é para o senhor A ou B. É feita de uma forma limpa e cristalina. Não há aqui negócios (…). A hasta pública é feita com base em critérios de execução, quem comprar tem de fazer o que está previsto na unidade de execução. Está tudo no maior rigor, transparência e isenção”, afirmou à Lusa.

O autarca revelou ainda que em 2003, a Câmara adquiriu, por 8,1 milhões de euros, 72 hectares de terreno que englobam os 14 hectares em causa nesta proposta, sendo que, agora, estes mesmos 14 hectares tem um valor base de licitação de 3,36 milhões de euros. “Façam as contas”, instou.

Ainda em resposta aos socialistas, o vereador do Planeamento Territorial, Mário Neves, deixou claro que venha quem vier, terá de cumprir o que está programado na unidade de execução, responsabilizando o processo eleitoral em curso no FC Porto pelo ruído em torno da venda dos terrenos.

“O que emperra este processo é o ato eleitoral do FC Porto. A nós tanto nos dá que seja o presidente A ou B, o que nos interessa é a instituição. Quando for a hasta pública nem sabemos se é o FC Porto, um parceiro, um vizinho ou a prima do FC Porto a adquirir. Quando for lançada, venha quem vier, com a certeza que terá de cumprir o que está aprovado. (…) Seja o FC Porto, o Benfica, o Al Hilal, eu até sou do Benfica e o presidente também”, referiu.

De acordo com o jornal desportivo O Jogo, o FC Porto, através de um parceiro que será estratégico na construção das futuras instalações, já adquiriu 10 dos 21 hectares de terreno para a academia do clube na Maia, uma das promessas do programa eleitoral de Pinto da Costa.

Propriedade do município, os restantes 11 hectares, terão de ser adquiridos em hasta pública que tem ainda de ser ratificada em Assembleia Municipal e publicada em Diário da República.

O projeto da Academia na Maia inclui um estádio com capacidade para 2.500 espetadores, nove campos relvados (quatro dos quais com bancadas de 400 lugares cada), além de um campo de futebol de sete, entre outras infraestruturas destinadas a reforçar a formação e prática desportiva no clube.

Já o edifício principal vai ser composto por uma zona técnica desportiva e a denominada Casa do Dragão, espaço residencial reservado a atletas acolhidos pelo FC Porto, onde existirão quase 70 quartos duplos, áreas de estudo e lazer ou uma zona de restauração.

Parecer negativo da CCDRN é um “não assunto”, diz Silva Tiago

No que respeita ao parecer negativo da CCDRN, que questiona a viabilidade da academia do FC Porto no concelho, assegurando que, mesmo sem plano B, o projeto do Parque Metropolitano vive.

“Isto é um não assunto, para já”, afirmou Silva Tiago, em declarações no final da reunião de ontem do executivo municipal.

De acordo com o Jornal Record, o parecer negativo da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN), conhecido no início de março, questiona a viabilidade do projeto, que abrange uma área significativa adquirida pelo clube.

Este documento, que foi anexado à unidade de execução, já aprovada pela Câmara da Maia, sustenta que “a construção dos campos de jogos implica a destruição de uma área de dispersão de materiais pré-históricos de superfície (…) já assinalada nos levantamentos patrimoniais apresentados no âmbito do processo em curso de revisão do PDM (Plano Diretor Municipal)” e que evidencia um uso continuado do espaço desde o Neolítico até, pelo menos, a Idade do Bronze.

Esta posição coloca em dúvida a compatibilidade do empreendimento com a preservação patrimonial, destacando a necessidade de uma nova avaliação e possíveis consultas a outras entidades externas, quando o projeto for submetido para licenciamento pela Câmara Municipal.

Confrontado com estas conclusões, o autarca da Maia explicou que o parecer da CCDRN é apenas necessário aquando da apresentação do projeto e não, como sucedeu, com o estudo da unidade de execução.

Apesar de admitir que as conclusões vertidas no documento possam ser refletidas aquando da análise do mesmo, Silva Tiago considera que tal não colocará o projeto para o local em “banho-maria”, uma vez que a obrigação legal é a de que estes vestígios arqueológicos sejam estudados.

O autarca admitiu que o projeto do Parque Metropolitano da Maia, onde se insere a nova academia dos azuis e brancos, vive mesmo sem aquele complexo desportivo.

Numa área de mais de 350 hectares, o projeto do Parque Metropolitano da Maia prevê uma área para instalação de um ‘campus’ tecnológico, residência sénior e, entre outras valências, duas zonas desportivas que podem vir a acolher os centros de estágio do FC Porto e do Boavista.

Partilhar:
Subscreva a nossa Newsletter