Ana Silva e Isabel Caetano crescem juntas como paraciclista e como guia

Ana Silva e Isabel Caetano_foto DR

 

 

A atleta invisual maiata Ana Silva começou a praticar ciclismo apenas no início do ano e já conseguiu sagrar-se campeã nos campeonatos nacionais de paraciclismo de estrada, que decorreram em Castelo Branco, no fim de semana de 19 e 20 de junho.

A dupla Ana Silva e Isabel Caetano (a guia) conseguiu o favoritismo no primeiro campeonato nacional de ciclismo que incluiu provas para ciclistas invisuais.

Antes Ana e Isabel já haviam participado no Campeonato do Mundo de Paraciclismo, em representação de Portugal, evento que teve lugar no Autódromo do Estoril, de 9 a 13 de junho.

Há aqui neste resultado o reflexo de “muito treino” com a perspetiva de “evolução pela frente”, mas não deixa de ser o fruto de “poucos meses”, como refere Ana Silva ao Primeira Mão.

Ana Silva só começou a praticar desporto quando começou a perder a visão, há cerca de três anos. Recorda que começou a praticar Goalball, no Castelo da Maia Ginásio Clube, modalidade que ainda compatibiliza com o paraciclismo.

Como surge a paixão pelas duas rodas? É simples, responde Ana, “tive saudades de andar de bicicleta”.

No ano passado, em conversa com amigos, surgiu a ideia de alugar bicicletas. Mas, contou-nos, “surgiu a pandemia e os valores das bicicletas levaram-nos a desistir da ideia”.

Mas Ana Silva não perdeu aquele “bichinho” e resolveu começar a procurar “onde podia praticar”. Foi então que se apercebeu que não existia o ciclismo em Portugal para “pessoas com deficiência visual”.

A maiata contactou na ocasião “diretamente a Federação Portuguesa de Ciclismo e o selecionador nacional, tendo este desde o início mostrado muita abertura para me ajudar a concretizar este sonho”. Ana Silva relata ainda que experimentou e nunca mais parou: “começou por ser uma brincadeira, que rapidamente se tornou numa coisa muito séria”.

O selecionador da Federação José Marques, que foi treinador da Isabel Caetano, indicou-ma como guia, pois não podia treinar sozinha. A Isabel mostrou-se “logo disponível para me conhecer e abraçar este projeto. Temos crescido muito as duas e evoluído muito”, acrescenta a atleta.

“Começamos no início do ano”, relatou ainda Ana Silva, mas a meio de janeiro o “país voltou a parar. Numa fase inicial, só treinávamos nos fins de semana e acabámos por não parar. Fomos sempre para a rua, claro com as precauções devidas. E, de alguma forma, também usufruímos porque as ruas estavam mais desertas e não havia tanto movimento”.

Ana Silva refere que não esperava um resultado tão bom, após seis meses de prática, ainda assim, “já muita coisa aconteceu que eu pensava que nunca iria acontecer, como por exemplo, ser convocada para o Mundial de Paraciclismo, que aconteceu em Portugal”.

Aí, já sabiam que havia “exigência” com os “melhores do mundo”, mas, segundo Ana, “foi uma aprendizagem muito grande”. Mais recentemente, no campeonato nacional, veio o “reconhecimento de toda a evolução e de todo o trabalho feito até hoje”.

O paraciclismo é dividido por classes e Ana Silva explica que, na sua classe, não tem adversários diretos. Mas a atleta estipulou desde o início: “não queria só participar. Eu queria evoluir, trabalhar e alcançar as médias que os melhores atletas da modalidade atingem. E acho que estou num bom caminho, porque, pelo menos, a evolução já está a acontecer”.

Isabel Caetano sai de um panorama de atleta para o de guia, também para ela esta é uma experiência nova, que relata desta forma: “sempre fui atleta, sempre andei na minha bicicleta sozinha e nunca tive necessidade de partilhar uma bicicleta com alguém, como estou a fazer neste momento. E ainda estou a aprender bastante, o caminho ainda é longo”.

Para a guia, esta jornada vivida com Ana Silva tem sido “uma aprendizagem mútua, no fundo a Ana ensina-me a ser guia, o que tenho de lhe indicar, quais os contextos, o que ela precisa de saber, fui aprendendo… e depois também lhe dou a aprendizagem toda do ciclismo. Acho que encaixamos muito bem, fazemos uma boa dupla, mas estamos as duas a aprender”.

Isabel Caetano termina esta nossa conversa apontando: “temos projetos para o futuro e a nossa ideia é continuar como equipa”.

Atleta e guia aderiram à Associação maiata Descobre Destreza, que se dedica ao apoio a atletas com deficiência. Isabel Caetano considerou muito importante a existência desta instituição, até porque os atletas geralmente estão muito focados no treino e não podem ter preocupações com logística, como alimentação, alojamento, etc.

Neste caso, a Descobre Destreza será um apoio importante para que os atletas com deficiência se dediquem em pleno à sua prestação física, “para depois podermos estar bem na corrida, estar bem psicologicamente…para nos podermos focar só na parte do treino E neste caso, a associação é uma boa ajuda para o atletas, um apoio”, conclui a guia Isabel Caetano.

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