Clássica da Maia deu concerto memorável na Casa da Música

foto Mário Santos

O concerto que a Orquestra Clássica da Maia deu , na noite da passada quinta-feira, 30 de abril, na emblemática Sala Suggia da Casa da Música, constituiu um dos momentos mais marcantes e memoráveis do seu histórico de 4 escassos anos.

Sob a direção do Maestro Jean Wierzba, o programa, particularmente bem escolhido, quer pela sua inegável qualidade estética, como pela coerência da estrutura das obras, proporcionou aos cerca de 600 espetadores presentes na sala, a fruição de um Belo Musical especialmente rico.

A Clássica da Maia deitou mãos à obra de três compositores, oriundos de três países diferentes, que nas suas composições utilizaram abordagens sinfónicas à Música Tradicional e à Cultura dos respetivos povos.

O concerto abriu com Cláudio Carneyro (1895–1963), numa espécie de tributo ao compositor portuense que fundou na sua cidade o Conservatório de Música do Porto e legou ao património sinfónico português as “Portugalesas”, obra maior da qual foram interpretados diversos excertos. Houve momentos em que a Música, como que descreveu uma pintura sonora, onde os elementos foram dando cor, luz e textura sinfónica ao som que brotava do palco. Num certo sentido, Cláudio Carneyro fez jus à Arte de seu pai, o Pintor António Carneyro, um dos proeminentes artistas portuenses do século XIX e XX.

A sua escrita mergulha profundamente na alma popular portuguesa.

Ouvindo as “Portugalesas”, não encontramos somente ecos do nosso folclore, mas descobrimos sobretudo que, através de uma recriação que respeita a essência da sua natureza original, o compositor eleva a Música do nosso povo a uma nova dimensão estética, empregando nesse processo criativo, todo o seu conhecimento e saber erudito.

Em “Malpica”, Cláudio Carneyro desenha uma vibrante paisagem atlântica.

O ritmo impõe-se com energia quase dançante, sustentado por uma harmonia modal que preserva o sabor tradicional. A orquestra, colorida e pulsante, sugere o movimento das comunidades costeiras, onde a música e o mar parecem respirar em conjunto.

Depois, surge a “Alvorada do Espírito Santo”, transformando a atmosfera musical que a antecedeu. Neste excerto, a Música remete-nos para o ambiente de um ritual coletivo e vai-se desenvolvendo em crescendo, como se a luz do amanhecer nos fosse, lentamente, apresentando uma comunidade que se encontra em celebração.

As fanfarras destacam-se pela sua impactante sonoridade, a densidade sinfónica intensifica-se e sobressai uma luminosidade dotada de uma certa espiritualidade, inspirada pela singular simplicidade harmónica que o compositor imprimiu.

Seguidamente, em “Malhão” e “Senhora do Almurtão”, apresenta-se-nos o equilíbrio possível entre duas realidades telúricas, a animação da dança popular, alegre e exuberante e o intimismo introspetivo do canto religioso.

Jogando com estes elementos, ora alternando-os com ajustada contenção, ora apostando na sua fusão, o compositor estabelece um significativo diálogo entre o profano e o sagrado, trazendo à Obra um traço profundamente enraizado na cultura portuguesa.

 De Portugal, a Orquestra da Maia conduziu-nos à Noruega, oferecendo a interpretação da “– Suite Lírica, Op. 54” de Edvard Grieg (1843–1907).

Da luz da paisagem e dos contrastes da cultura popular de um povo do Sul da Europa, viajamos para o norte, até à Noruega, onde Edvard Grieg traduziu em música a paisagem e o imaginário do seu país.

A “Suite Lírica” preserva a intimidade das peças originais para piano, mas expande-as numa paleta tímbrica orquestral, muito rica e sugestiva.

Em “Shepherd Boy”, a simplicidade assume-se como elemento expressivo. Aparentemente ingénua, a melodia, paira sobre uma transparente e estável harmonia, remetendo para a serenidade da vida rural. Cada som produzido surge com a naturalidade da respiração, parecendo suspenso num tempo mais lento.

Entretanto, a “Norwegian March”, apresenta-se com um caráter marcadamente afirmativo. A clareza e estrutura do ritmo marcial, convoca sentimentos de pertença a uma comunidade e desperta para valores de identidade coletiva.

Com a parcimónia que impõe a si mesmo, Grieg, compõe uma Música direta, cuja força advém da clareza do seu pensamento musical, plasmado na partitura e, obviamente, no resultado da interpretação.

Chegados ao “Notturno”, vamos encontrar um discurso recolhido. Aí, deparamo-nos com uma atmosfera que nos pretende convocar à contemplação, oferecendo-nos uma harmonia cromaticamente subtil e enriquecida por um rasgo criativo que emociona.

O entrelaçar das cordas com as madeiras, promovem uma atmosfera intimista e introspetiva, numa paisagem sonora de horizontes largos.

Finalmente, em “March of the Dwarfs”, somos surpreendidos com o improvável, a fragmentação da Música que gira entre extremos e joga com acentuados contrastes rítmicos e dinâmicos.

Grieg, esclarece que foi beber a sua inspiração à rica mitologia nórdica, colocando-a ao serviço de uma Música que contém humor, fantasia e laivos de um grotesco, por vezes desconcertante, que aqui e ali, vai aparecendo, mas sem nunca comprometer, a coexistência expressiva que o compositor cuidou de assegurar.

Para encerrar a viagem, Jean Wierzba conduziu a Orquestra até aos Estados Unidos, para fazer soar “– Appalachian Spring Suite”, de Aaron Copland (1900– 1990).

A nossa viagem culmina nos Estados Unidos, com Aaron Copland e a sua “Appalachian Spring”.

Estamos agora diante uma linguagem sinfónica mais burilada e mais aberta, à semelhança da paisagem que o compositor pretende descrever.

A utilização frequente de intervalos de 4.ª e 5.ª na composição harmónica, permite transmitir uma inconfundível sensação de espaço.

Composta primeiramente como ballet para Martha Graham, esta obra retrata, numa visão idealizada, o quotidiano da vida rural norte-americana.

O Compositor conjuga com profunda expressividade, a contenção dos gestos e a transparência das texturas.

“Simple Gifts” é o tema que se ergue no centro da Obra. Trata-se de uma melodia de origem “Shaker”, transformada através de variações pelo compositor. Sem abandonar nunca a essência, expande progressivamente a sua simplicidade inicial.

E de novo, temos Música que respira valores de comunidade, espiritualidade e equilíbrio.

Antes de regressarmos, no final, à quietude inicial, teremos passagens que oscilam entre a celebração e o recolhimento, deixando a pairar a ideia de uma espécie de regresso à essência, após a criação de uma vida nova. Uma essência que o espaço, o silêncio e a promessa consubstanciam.

Na verdade, esta viagem musical, entre Portugal, Noruega e Estados Unidos da América, revela-nos diferentes formas de olhar para a tradição e para a essência destas culturas, que apesar de diversas nas formas de expressar os seus modos próprios de ver, ser e estar no Mundo, se encontram numa essência humana comum.

E em comum, também permanece a mesma ideia: a de que a música pode ser memória, identidade e imaginação — tudo ao mesmo tempo.

Através de uma cartografia meramente imaginária, sem fronteiras geográficas, mas marcada pelos naturais contrastes que as diferentes vivências culturais destes três grandes compositores influenciou, revelou-se-nos um território universal comum e contínuo, a Música.

Das raízes telúricas e religiosidade de Portugal, passando pelo dramatismo místico do Reino da Noruega, à imensidão das luminosas planícies da América do Norte,

Foi um concerto, que levou o público a viajar até ao interior da “alma” destes três povos, confirmando, de novo, que a Música é, de facto, a linguagem da Paz. A linguagem que nos interpela, que nos convida à empatia e ao diálogo intercultural.

 

(Texto: DR)

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