Teve lugar ontem, 31 de março, terça-feira, na Igreja de Nossa Senhora da Maia, o anunciado Concerto de Páscoa 2026, com o Coro da Sé Catedral do Porto e a Orquestra Clássica da Maia, sob a direção do Maestro Tiago Ferreira.
Foi um programa centrado na espiritualidade musical de Johann Sebastian Bach e Maurice Duruflé.
«O concerto começou com Ich habe genug, BWV 82, revelou desde logo um ambiente de introspeção. A leitura foi contida e expressiva, ainda que por vezes excessivamente prudente no desenho das frases. O barítono Job Tomé destacou-se pela consistência vocal e pela clareza da dicção, conseguindo transmitir a resignação serena que atravessa a obra, conseguindo acrescentar maior contraste expressivo em alguns momentos-chave. A orquestra acompanhou com contenção e equilíbrio, favorecendo o carácter espiritualmente intimista da cantata.
Depois, nos Quatre Motets sur des thèmes grégoriens, de Duruflé, o coro evidenciou um muito bom controlo da afinação e uma sonoridade homogénea, qualidades essenciais neste repertório.
A forma como o Maestro Tiago Ferreira trabalhou o fraseado numa Obra cantada Acapella, proporcionou ao público que lotou o Templo, a fruição da transparente luminosidade de uma Música fluída e intemporal alicerçada nos fundamentos do Canto Gregoriano. Este foi, sem dúvida, um momento especial da noite.
Mas foi com o Requiem, Op. 9 que o concerto atingiu o seu ponto mais marcante. Na brilhante interpretação desta Obra, a direção de Tiago Ferreira, afirmou uma serena segurança na construção dos planos sonoros e na gestão das tensões internas que diferenciam esta impactante Música.
A mezzosoprano Maria Inês Santos protagonizou um dos momentos mais conseguidos da noite, com um “Pie Jesu” de grande pureza tímbrica e expressividade contida. O coro respondeu com solidez, especialmente nos trechos mais contemplativos, enquanto a orquestra demonstrou uma paleta dinâmica bem calibrada. Globalmente, este foi, sem sombra de dúvida, um concerto plenamente conseguido, marcado por uma abordagem séria e respeitadora do repertório, com passagens de uma exuberante intensidade sinfónica que fez estremecer a sensibilidade dos presentes.
A coerência do programa e a qualidade global dos intérpretes garantiram, certamente, uma das experiências mais inesquecíveis para o público que teve o privilégio de testemunhar o Belo Musical que ali se realizou», conforme informou a Câmara da Maia.
